Confira!


"Um estudante que inventa verbos, testando a paciência do professor, um avô que se recusa a acreditar na existência da televisão, um deus com pinta de homem comum. Como os personagens que habitam seus crônicas, o texto de João Ubaldo Ribeiro não precisa de muito tempo para nos cativar, com sua originalidade e seu humor irresistíveis. Dono de uma prosa erudita, ele extrai o inesperado de temas que vão do vestibular ao futebol, passando pela dificuldade de nos sentirmos aceitos na infância e na adolescência. Você vai se identificar com as emoções que este livro é capaz de despertar."



Autor: João Ubaldo Ribeiro
Gênero: Conto/Crônica
Número de páginas: 199
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2010
Editora: Objetiva


Você vai rir o tempo todo


Selecionados por Regina Zilberman para integrar essa coletânea lançada em 2010, os contos de crônicas presentes neste livro foram, provavelmente, escritos em épocas diferentes, e eu não me surpreenderia se soubesse que estão distribuídos em outros livros publicados por ele. Minha experiência com a leitura, e especialmente com literatura brasileira, me leva a deduzir que esse seja um costume entre editoras brasileiras, pois já li muitas coletâneas e antologias reunindo textos avulsos deste ou daquele escritor, muitos deles escritos ao longo de anos, e em seguida republicados. Essa é a primeira coisa que você precisa saber sobre este livro.
A segunda coisa é que ele faz parte da coleção Para ler na escola, da Editora Objetiva, criada com a intenção de aproximar estudantes do Ensino Médio das obras de escritores brasileiros conceituados (creio que isso justifique o motivo para a escolha do nome). Esta coleção é integrada por diversos livros cujos títulos variam ligeiramente (Poemas para ler na escola; Contos para ler na escola; Crônicas para ler na escola). Você pode ler um pouco sobre isso e conhecer outros títulos da coleção no site da Editora Objetiva.
Pois bem, vamos ao livro!
Vou fazer alguns pequenos resumos sobre algumas histórias contadas neste livro. Temos aqui algumas histórias riquíssimas e extremamente inusitadas, contadas com muito bom-humor e leveza. Um papagaio que gosta de tomar choques; receber um beijo acidental; um prêmio de programa de auditório que não se sabe o que é; as superstições de uma família ao ver jogos do Brasil em Copas do Mundo; a "malandragem" de um pai; a mãe que não gosta do Dia das Mães; o "jeitinho brasileiro" em terras norte-americanas. Essas são apenas algumas das crônicas e contos que conheceremos aqui. Por se tratarem de contos de crônicas curtos, é um pouco difícil falar muito sobre cada uma das histórias individualmente. Cada detalhe contado além do que falo aqui poderia ser um spoiler.
Essa na verdade foi uma releitura. Eu já havia lido este livro uma vez, embora não me lembre o ano, mas com certeza foi antes da morte de João Ubaldo Ribeiro, ocorrida em julho de 2014. Na época em que o li pela primeira vez, não tive grandes dificuldades de compreensão, mas confesso que eu não me lembrava nas histórias. Portanto, a releitura foi produtiva por ter trazido de volta o encanto com esse leve humor nordestino de João Ubaldo.

"Quando ele veio de lá me tacar o beijão,
mais que depressa baixei a cabeça e ofereci a careca
(desse dia em diante, nunca mais fiquei chateado por ser careca)."
Beijinho, beijinho. Página 71.

Como você já deve ter visto na ficha de informações, trata-se de um livro curto: 199 páginas. As histórias aqui contadas também são curtas, e o fato de serem divertidas faz com que a leitura avance mais rápido. Creio que o divertimento seja um fator importante para que o leitor sinta-se incentivado a continuar. Uma história engraçada e curta, rápida de ser compreendida, me faz pensar: "Mas que livro!". Dar pequenas risadas entre um parágrafo e outro, abrir sorrisos leves ao fim de uma história alimenta minha vaidade sobre as escolhas que faço para leituras, e ao mesmo tempo me faz pensar: "Como passei tanto tempo sem conhecer a obra desse escritor?". Devo acrescentar que essa é uma pergunta recorrente na minha vida; eu a repito sempre que faço uma nova descoberta literária.
Um detalhe importante sobre o livro, destacado por Regina Zilberman na apresentação, é a grande quantidade de histórias escritas em primeira pessoa. João Ubaldo Ribeiro parece ter grande facilidade para escrever em primeira pessoa, coisa que eu considero interessantíssima, pois sempre que começo a escrever em primeira pessoa, acabo achando que a narração não está muito profunda e que a história está mal escrita, e assim, eu a abandono. Dessa forma, fico sempre muito surpresa e contente ao encontrar boas histórias escritas em primeira pessoa.
Talvez o fato de praticamente tudo estar em primeira pessoa possa deixar o leitor um pouco confuso, pois acabamos achando que todas as histórias são crônicas, e que tudo que é contado faz parte da vida dele. Entretanto, conforme avançamos no livro, acabamos descobrindo a diferença entre os contos e as crônicas, e descobrindo o que é um e o que é o outro. Nas crônicas, João Ubaldo nos fala muito de sua vida na Ilha de Itaparica, na Bahia, e também de outros lugares onde viveu; ele nos fala muito também de seus familiares e de sua vida como escritor. Repentinamente, quando chegamos a Do diário de papai, tudo isso desaparece. Somem a Bahia, o Nordeste, os parentes, a Ilha de Itaparica, enfim, tudo o que conhecemos sobre a vida de João Ubaldo, e surgem personagens totalmente desconhecidos. Esse não é um aspecto ruim. É uma transição repentina que nos faz compreender o que aconteceu de verdade, e o que foi imaginado pelo autor.
Os contos, não menos divertidos do que as crônicas, são um pouco mais longos. Confesso que tive um pouco de preguiça com O santo que não acreditava em Deus, pois a história demora um pouco a se desenrolar, mas quando encontramos a conexão entre o título e os acontecimentos, tudo fica deliciosamente divertido. O artista que veio aqui dançar com as moças quase se confunde com as crônicas, pois nos leva de volta à Ilha de Itaparica, mas existe aquela ausência das figuras que fizeram parte da vida do escritor. Já o último título do sumário, Abusado Santos Bezerra, é aquilo que faz você ter a certeza plena de que não fez uma escolha ruim. Neste conto, Ubaldo satiriza os filmes e seriados americanos, nos trazendo uma história em que o presidente dos Estados Unidos é ameaçado por nada mais nada menos que fezes. Fezes que subitamente aparecem no ambiente da Casa Branca, nos locais mais inesperados possíveis, e que levam o serviço de segurança do presidente a pedir socorro ao detetive brasileiro Abusado Santos Bezerra, nordestino, figura clássica que representa o "jeitinho brasileiro", e que dá muita dor de cabeça aos americanos, nos fazendo dar as melhores risadas de nossas vidas. De maneira genial, Ubaldo ainda faz piada com a pronúncia equivocada de algumas palavras em Inglês, visto que alguns dos personagens deste conto chamam-se "Ailoviú", "Phil Guivimi" e "Foquefoquiú". A simples escolha de tais nomes já é um motivo enorme para risos.
Recomendo a leitura deste livro para todos que gostam de contos e crônicas, para admiradores de João Ubaldo, admiradores de literatura brasileira, e para todos aqueles que tenham um bom senso de humor.
Falecido no ano de 2014, João Ubaldo Ribeiro era um dos escritores brasileiros mais consagrados atualmente. Era formado em Direito e foi também jornalista, roteirista e professor, além de membro da célebre Academia Brasileira de Letras desde 1993, ocupando a 34ª cadeira. Ele faleceu no dia 18 de julho de 2014, aos 73 anos, vítima de uma embolia pulmonar.

Aspectos positivos: humor leve; presença de ironia; histórias cativantes que despertam a identificação do leitor; habilidade na escrita em primeira pessoa.
Aspecto negativo: a grande quantidade de textos em primeira pessoa pode confundir um leitor menos experiente, que ficaria sem saber quais das histórias são contos, e quais são crônicas.

Por: Lethycia Dias

Referências bibliográficas:
João Ubaldo Ribeiro. Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Ubaldo_Ribeiro>. Acesso em: 10 de janeiro de 2016.

2 Comentários

  1. Oi Lethycia! Obrigada pelo comentário em "Como Escrever uma Resenha Literária" <3 Eu concordo com você, criticar é muito difícil. Na verdade, eu sempre procurei fundamentar minhas opiniões e não tinha problemas em explicar o porquê de não ter gostado de determinado aspecto, porque os autores - Jane Austen, por exemplo! - não iam se importar muito. Quando eu recebi um exemplar do próprio autor para resenha que surgiu o 'perigo', porque não posso "queimar" a obra, mas também não posso mentir para os leitores. É preciso de muito tato para fazer críticas de modo que elas não fiquem puramente negativas, mas sejam construtivas!

    Também quero agradecer por ter compartilhado essa resenha. Eu acho particularmente difícil resenhar um livro de crônicas/contos justamente por ser constituído de várias histórias, mas você o fez de forma muito detalhada, fundamentada e completa. Infelizmente, não tenho muito contato com autores brasileiros, mas me interessei bastante por esse livro.

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Entendo completamente seu ponto de vista. Eu também me senti mais ou menos assim quando reli um livro que tinha ganhado de uma amiga, cujo autor era o primo dela, que ela admira muito. Fiquei bem preocupada na hora de resenhas, apesar de que no fim da leitura eu acabei gostando.
      Agradeço por ter vindo visitar, e gostei do seu feedback. Espero que decida mesmo ler o livro, e que se sinta incentivada a conhecer melhor a literatura brasileira.
      Beijos e abraços!

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